Relato de um fã cearense que foi para o show do Megadeth em Recife
"Possibly I've seen too much Hangar 18 I know too much"
Cresci ouvindo este refrão meio que por tabela. Meu tio ouvia sempre nos finais de semana de reunião de família. Eu, atento não às músicas, mas àquele desenho tão chamativo que ilustrava a capa de um dos primeios bolachões que pude desejar na minha vida: uma caveira, segurando uma pedra esverdeada que brilhava iluminando um caixão com um alien dentro. Nossa! O ano? 94. Pra mim pouco importava a copa do mundo...
E assim, ao som de Rest in Peace, cresci. Bem como ao som de diversas outras bandas de Thrash e Heavy. Mas o lance com o Megadeth era algo olho no olho. É aquela coisa de ficar puto com algo tão bom! rs. Não sei bem explicar. Difícil eu lembrar de citar o Megadeth como uma das 3 melhores bandas quando sou perguntado, mas enfim. Sempre me lembro de algum fato da minha adolescência ouvindo aquela voz estranha de um tal de Mustaine. Como todo fã, sobrevivente dos bons anos 80, no começo o que dava para fazer era se contentar com VHS de shows, cds emprestados, já que eram caríssimos, ler resenhas de shows que só me faziam imaginar como seria um dia eu lá participando de tudo aquilo.Tempos bons em que ir para show de covers e ficar na calçada conversando sobre banda com amigos ouvindo fitas k7s era o máximo.
Cresci. O moleque de 15 anos que outrora você foi sai de cena. E a banda cresceu, mudou, morreu, renasceu... Gente deixou de ser fã. Gente virou fã.
Tive então uma chance de vê-los em 2008. Local? Manaus. "Ah cara fala sério...vai se tacar daqui pra lá pra ver uma banda?" "Sinceramente não entendo cabeça de fã de Metal..."
E não é pra entender e mais pra frente explico o porquê.
Planejei a viagem, fui, e tive o PRIVILÉGIO de saber que o show foi cancelado em menos de 4 horas após ter pisado no solo de Manaus. Pois é. Não seria daquela vez. Raiva? Muita. Motivo? Mais um dos acessos de mudança de humor do líder da banda, histórias desencontradas... enfim. Fiz minha parte e conheci a cidade, mas com aquela sensação de tristeza por ver algo escapar entre os dedos. Prometi não ouvir mais aquela merda de banda.
2010 veio.
Um ano após realizar grandes sonhos de ver bandas que me emocionaram além do normal.
Foi então que começou aquele rebuliço de que haveria uma segunda chance. Amigos todos se organizando para uma viagem, agora mais próxima, em Recife.
Meu clima era outro. Com problemas familiares que envolviam hospital e UTI na mesma frase e uma tremenda dose de responsabilidade e medo. Demorou para eu ver que simplesmente dava pra tentar. Graças a uma pessoa que me fez ver que aquilo poderia me servir como bateria para me dar energia e descanso em meio a tanta coisa.
A adrenalina começou a ocupar minha mente conforme eu voltava a ouvir "aquela merda de banda" rs. Ok, darei a mim mesmo uma chance. O moleque de 15 anos dentro de mim vibrou. E tomou conta. Vigilia na internet para comprar ingresso, que veio em forma de Nº1!!!!
Era notável o falatório à espera, as contagens regressivas... Será que daria certo?
Passagem de avião comprada durante madrugada em poltrona de hospital. Quando chegou o grande dia, infelizmente alguns amigos não puderam ir. Novamente, com tudo planejado, seria um bate-e-volta de praticamente 24 hrs. Almoço e lanche no aeroporto sem nenhuma mordomia e com cadeira duras. Após esperar ansiosas 5 horas por lá, tomei um táxi até o local do show sabendo que lá estariam aqueles que iriam compartilhar de tudo aquilo que estava próximo de acontecer: meus amigos. E nunca uma palavra fez tanto sentido.
Andando pelo local externo ao show, sozinho e portando somente o dinheiro suficiente para voltar a Fortaleza, com a passagem de avião na carteira e com meu RG, tive a surpresa de encontrá-los! Conhecidos e desconhecidos que mesmo após enfrentarem 12 horas de viagem mantiveram o que chamo de Espírito da Força. Mas o clima geral era de alegria e contentamento por estarem lá pra um propósito. Quase que um chamado. Fomos a um bar, conversamos, conheci gente e me surpreendi com outras. Fui na fila e encontrei amigos que fiz virtualmente, de diversos locais do Brasil. Praticamente uma viagem cultural e de idéias sem sair do lugar. Novamente estava na minha região com meu povo por assim dizer.
Faltava pouco e a ficha começava a cair. Eu iria ver a tal banda. As horas na fila são infinitas. O tempo não simplesmente não passa. E você acha que é o único nervoso por ali. E olha que já vi muitas bandas e já peguei "N" filas. Será que seria um efeito do que não pude concluir em Manaus? Quando o relógio alcança as 22 horas o que ocorreu: em meio ao empurra-empurra da entrada, consegui me desvencilhar com meu ingresso na boca e entrar pelo portão rumo as catracas em uma corrida desenfreada. Gritava o nome dos amigos para saber que os mesmos estavam por perto. NADA. A multidão aumentava, o aperto também. Aquele pivete de 15 anos teimava em se mostrar ansioso e nervoso. Faltava pouco!
Fui barrado na catraca por conta do ingresso. Tive que ser rude e realmente gritar com o responsável mostrando a ele o quanto ENTRAR ali seria importante pra mim. Algumas pessoas viram o ingresso Nº1. Exclamavam! A partir daí, foi tudo muito rápido. Do ápice ao fundo do poço:
Entrei. Corri. Subi uma breve escadaria, corri mais ainda. Pude ouvir vozes conhecidas correndo logo atrás de mim. O intuito era ficar na grade. Perto. Bem perto. "Esse sou eu?" ainda me peguei pensando. Era tarde. Cheguei na grade. Vibrei. Vi o palco. Vibrei mais ainda numa prece silenciosa. Então percebo que perdi tudo. Sim, meu caro leitor ou mero curioso do que é ser fã, TUDO. Mais fácil seria se eu tivesse levado um murro. Balançaria a cabeça mas mesmo assim ficaria ali na grade. Pela primeira vez na minha vida, em um show que pra mim era questão de honra, perdi dinheiro, celular, cartões, RG e a passagem de volta. No bolso, 65 centavos que, ao segurá-los em minha mão, me fizeram apertá-los com raiva.
A partir daí, o misto de sentimentos: ter que me afastar da grade cada vez mais e ver o pessoal preenchendo aquilo tudo em meio a gritos de alegria. Tudo isso foi sem som e sem cor para mim. Não brinco quando falo isso. Estava diante de algo que era cruz e espada: longe de casa, sem nenhuma condição de voltar, e com um prejuízo considerável.
Por outro lado estava a horas de realizar um sonho. Antigo. Que ainda me fazia olhar pro palco com uma cara de desconfiança.
Foi então que eu fui vitimado por algo chamado solidariedade. Primeiro, uma amiga, vendo a situação, se colocou instantaneamente no meu lugar. Quase aos prantos, com uma cara de total espanto. Em seguida, outro amigo. Depois mais um desconhecido. Enquanto isso eu ia de lado a lado buscando uma solução. Mesmo sabendo que aquele palco imenso me encarava. Desafiador. Baixei a cabeça e me preocupei em ver uma forma de achar o que havia perdido.
Me questionei por que raios eu me meti a fazer tudo aquilo. Empurra empurra, correr, gritar com um funcionário... Coisas que nunca fiz em show algum. Soube que outro amigo meu também fora roubado. Em pouco tempo, parecia que a notícia já era de conhecimento geral e gente que nunca vi na vida passava por mim e, ou pedia para eu ter força, ou dizia que caso soubessem de algo iriam me chamar. Era uma união, uma cumplicidade que eu sinceramente jamais havia sentido.
O tempo passava. A banda de abertura já estava tocando e cada som vindo deles para mim soava como uma trombeta anunciando o juízo final. "E agora, José?" Em seguida, a notícia de que eu poderia voltar com uma caravana organizada por um cara que, se eu escrevo estas linhas, é por culpa e em agradecimento a ele. Mas que "eu ficasse tranqüilo que dariam um jeito de eu voltar"! E não escutei isso de uma pessoa não. Foram várias. Quando parei, a razão falou "Cara, respira fundo, não adianta muita coisa agora. Mas te digo duas coisas: curta este show, viva ele!" Eu não estava só. Procurei um local pra ver o show, ainda ressabiado. Somente quando as luzes apagaram foi que eu vi o que gostaria de ver há muitos anos atrás. Perecebi que aquele tipo de emoção que se busca nas coisas simples da vida eu sempre sentia quando participava de um show. E ali não foi diferente. Foi mágico.
Uma energia. Uma força. A tal liberdade que tantos buscam. Vi a banda tocando com sangue e vontade. Escutei músicas que pra mim eram parte de uma época.
Desnecessário delongar minhas linhas para contar como foi o show. Foi tudo e um pouco mais que qualquer palavra que eu digite ou fale.
Tão logo acabou o show, pedi dinheiro a alguns amigos para comprar uma garrafa de água. E literalmente cacei o organizador da caravana que, no caso, era minha única chance de não amanhecer em uma cidade 800km distante da minha casa. Ali já não me importava o que foi roubado. Eu andava com um sorriso. Uma vontade de olhar para o palco e chorar. Vi muitos presentes fazendo isso. Externando sensações e sentimentos. Muitos já com idades para serem pais, outros mais novos. Caso procure este tipo de emoção em algum canto, desculpe informar mas em canto ALGUM você irá achar. Só quem vive é quem sabe. Achei o responsável pela caravana, expliquei rapidamente o que havia acontecido e a resposta me veio simples: "Cara, sem problema algum. Quem sou eu pra te negar algo?"
Voltei pra casa. Aqui estou. Graças a uma série de fatores que listo de forma fácil: Vontade, Força, Razão e Amizade. Escrevo tudo isto como uma forma de agradecer a quem me ajudou de alguma forma ou de forma definitiva. Não quero citar nomes pois seria injusto até mesmo com quem me ofereceu comida e nem ao menos informou o nome.
Quanto à frase "Não dá para entender cabeça de fã de Metal": Não é para entender mesmo. Basta você respeitar. Pois fãs você encontra em qualquer bandinha de esquina. Dos mais variados tipos. Mas NÓS vamos, sem fanatismo, muito mais além.
Obrigado a todos.
Tiago Sousa Marques



